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domingo, 24 de maio de 2015

O CASTELO

O Castelo

A estrada de chão batido serpenteando longa e sinuosa transformava em labirintos a mata nativa, único acesso à propriedade cercada de pinheiros centenários conduzindo ao tradicional educandário católico. Pedrinho observava através do para-brisa da caminhonete o imponente prédio que despontava ao alto à medida que o veículo avançava em meio à floresta aproximando pouco a pouco da entrada principal.

O Castelo de arquitetura estilo alemã, desenha nas suas extensões laterais enorme pássaro de asas abertas representando o Divino Espírito Santo. A capela é a cabeça da ave e o corpo os anexos com acesso aos dormitórios, refeitórios, salas de aula e demais instalações. Enquanto viajava, o garoto visualizou um cenário de mistério e magia que remetia aos tempos medievais de dragões, reis, princesas, guerreiros e criaturas estranhas.

Pedrinho e o pai foram recebidos pelo padre superior Josué. Ele os acolheu na entrada do alpendre e indicou o local da hospedagem dos internos, onde as malas deveriam ser desfeitas. No dormitório, as camas eram posicionadas lado a lado ao redor das paredes com acesso livre aos armários individuais e às saídas para os lavatórios e banheiros comunitários. Ao lado das camas havia criados com repartição para sapatos e chinelos e gaveta para os produtos de higiene pessoal. Cada seminarista era responsável por manter a sua cama sempre limpa e arrumada. Ele desfez as malas com a ajuda do pai, escolheu uma cama disponível no fundo do corredor, perto da janela e deitou para testar a densidade do colchão de espuma nada confortável. 

Dias antes, a mãe preparou toda a bagagem com roupas para o semestre. A mala nova com dois cobertores, roupas de cama e de banho, calças e camisas, bermudas, cuecas, meias e demais itens. O material foi todo etiquetado com o número “321”, que seria seu código de identificação. Não podia faltar a Bíblia Sagrada, com a dedicatória da mãe: “Meu querido filho, eis o livro dos livros, ele contém luz para vos nutrir e conforto para vos alegrar, lede-o e praticai-o para tornares digno de seus ensinamentos”. Havia também foto dos pais e dos irmãos e, escondidas por debaixo das roupas, várias revistinhas em quadrinhos. O pai retornou à família antes do escurecer, pois não sentia segurança em dirigir à noite.

O educandário está localizado no marco da Estrada Real de Latitude S 21º 19’ 17 e Longitude W 43º 42’ 32. Na época, final da década de 1970 era tudo mais difícil; o pai parou várias vezes para consultar o mapa rodoviário desenhado pelo amigo taxista que conhecia bem a região. Dirigiu através da BR-040, ainda não duplicada, até Barbacena e de lá até a cidade de Antônio Carlos pela MG-135. Na estrada, cruzes brancas decoravam a beira do caminho próximo ao cruzamento com a linha férrea. Cerca de quinze minutos do centro e mais alguns quilômetros na estrada de terra até o destino.

Quando aceitou o convite para ingressar na seara sacerdotal Pedrinho viu alterados os rumos da sua vida. Aos doze anos foi o primeiro e decisivo passo que deu na sua curta trajetória de vida, deixando-o frente a frente com o destino. Estava prestes a vivenciar os momentos mais marcantes da sua infância.

Era hora de partir. Ele entrou no banheiro ainda sonolento. A dor forte na boca do estômago revirava a barriga com um calafrio que subia pela coluna vertebral deixando-o zonzo. Após as despedidas de praxe, sem mais delongas, Pedrinho
 entrou na caminhonete. A mãe recolheu o choro e foi rezar na janela que dava pra rua, seguindo com o olhar o veículo se distanciando. Depois de abraçar os irmãos, ele prometeu escrever cartas a todos contando as novidades.

A cidade ficou na curva da praça, mantendo em seus contornos as amizades da escola, os colegas de rua, da igreja e do futebol, o cão preto e branco Dunga, a gatinha Thiane e o galo de estimação.

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