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quinta-feira, 23 de abril de 2015

QUINCAS DAS PEDRAS

QUINCAS DAS PEDRAS

O Senhor Joaquim das Pedras, mais conhecido como Seu Quincas das Pedras, viveu em Cristiano Otoni, na primeira metade do Século XX. O que sei, contado por minha mãe Diva de Freitas e, que também, não soube lá me dizer as características físicas do sujeito, se era alto ou baixo, gordo ou magro, calvo ou cabeludo, mas imagino que provavelmente usava bigode como era costume da época, é que foi um bom homem, o que pode ser comprovado por seus possíveis descendentes.

O fato é que não conheci o tal Quincas das Pedras, como também não conheci em vida o meu avô Benedito Ribeiro, somente através de fotos e das belas histórias relatadas por Diva, sua filha caçula. Um homem de respeito que criou doze filhos, seis homens e seis mulheres com o suor do rosto na lida diária dos afazeres na fazenda Maria Preta, em Água Limpa. Era bom em matemática, apesar do ensino primário e, também versado sobre as coisas da vida. Pessoa idônea, era escolhido entre os cidadãos lafaietenses para compor o júri no Tribunal de Justiça da cidade.    

Em certa ocasião Benedito Ribeiro se viu em apuros dos grandes. Era o primeiro fiador em empréstimo de alto valor contraído por um homem de negócios da cidade, tendo a sua casa posta em garantia da dívida. Como o individuo não honrou os seus compromissos com o credor, o banco avisou que liquidaria as promissórias e a casa seria posta à venda para cobrir a fatura. Benedito, já mais velho, mudou-se de vez com a família para Lafaiete, comprando com o dinheiro da venda da fazenda a casa no bairro Chapada.

Rosa, sua esposa, sem saber como desfazer tamanha desgraça, aumentou suas orações. O casal estava para ser despejado, faltavam poucos dias do prazo dado pelo banco para que a dívida fosse paga, caso contrário a casa seria vendida. Interessados de plantão não faltavam, informados pelo dono do cartório depositário dos documentos, pronto para lucrar com a transferência do imóvel, deixando em desabrigo a família.

Foi então que Ribeiro procurou pelo amigo Antônio Franco, compadre de longa data, de amizade fraterna e irmandade que não existe mais nos tempos atuais e, relatou a gravidade dos fatos. O compadre vendo o desespero do amigo logo se mostrou solidário e ofereceu seu apoio para intermediar uma conversa com o dono da dívida, conhecido como Quincas das Pedras, em Cristiano Otoni. Influente na região, como homem honrado e político compromissado, Franco e Ribeiro foram de Jeep até a cidade vizinha.

Chegando lá, Franco conversou longamente a sós com Quincas das Pedras, enquanto Ribeiro aguardava no carro o desfecho da prosa. Foram sem dúvida os minutos de espera mais agonizantes da sua vida. Por sim, apareceram Franco e Quincas das Pedras conversando animadamente caminhado até o Jeep. 

– Então esse é homem! - afirmou. – Pois fique sabendo que a partir de agora o senhor não deve mais nada - disse, rasgando em pedaços as promissórias. – Vai cuidar da sua família que você é um homem de valor.

Benedito só faltou beijar as suas mãos e partiu aliviado por ter tirado o enorme peso das costas. Diva não sobe dizer qual foi a conversa que os dois tiveram. Viveram na casa até o casal morrer e o bem ser repartido entre os filhos. Foi eternamente grato ao compadre Antônio Franco.  


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