O pai, por certo tempo, fez
saborosas cocadas de coco ralado, marrons e brancas. Quando criança adorava
ajudar a fazer as cocadas para no final raspar o tacho. Depois, levava a
encomenda até a quitandinha mais próxima de casa onde Seu Juca aguardava para
serem expostas à venda ao gosto do cliente.
Ele executava a atividade com
tal maestria que na inocência parecia ser um hobby ou coisa parecida, jamais imaginava
que a venda das cocadas servia de complemento à pouca renda salarial. Nunca viu
o pai reclamar, mesmo quando raramente se distraia e o doce queimava passando do
ponto ou se a situação estivesse ruim por conta da política econômica do
governo.
Na década de 1960, com duas filhas
pequenas e a mulher grávida ficou desempregado quando o comércio que mantinha
quebrou. Com dificuldades financeiras para sustentar a família, por pouco não aceitou
o convite do já famoso médium Zé Arigó, primo de sua esposa, para ir trabalhar
na recém-inaugurada capital federal. Com seus contatos Zé Arigó conseguiu-lhe um
emprego e foi avisado de que deveria se mandar de imediato para Brasília.
Acabou declinando do emprego avaliando
que, apesar da grande oportunidade não seria sensato deixar a mulher grávida
com filhos pequenos para criar e aventurar-se na cidade de JK. Virou-se como
pôde tentando novamente o comércio, depois um emprego público e outros biscates.
Observador atento entendia de
engenharia e, os anos de trabalho como ajudante de pedreiro, pedreiro e pintor
na construção civil o capacitaram a ponto de construir sua própria residência.
Do alicerce à laje, passando pelo acabamento e pintura ele que fez ou sob a sua
supervisão.
Todo o serviço de ampliação
posterior da casa e manutenção realizava sozinho. Trocava as lâmpadas,
consertava o chuveiro, ferro de passar roupas, enceradeira, montava e
desmontava com conhecimento, às vezes tomava choques. Fazia também todo o
serviço hidráulico, desde desentupir pia, descarga estragada, cano furado,
vazamentos até goteiras no telhado, troca do piso e reforma dos móveis.
Além disso, era cozinheiro de
mão cheia, picava o frango com precisão, limpava e cozinhava peixes, preparava
o pernil de Natal, sopas saborosas e muito mais. No almoço de domingo
preparava, como ninguém, o prato típico da culinária mineira: franco com
quiabo, arroz branco, tutu de feijão, couve picadinha refogada com alho
torrado, acompanhado de torresmo de barriga e angu de fubá grosso. Para
sobremesa, doce de leite caseiro e queijo minas, tudo bem preparado no fogão à
lenha.
No truco era dos melhores,
jogava baralho com a destreza de mestre e roubava melhor ainda. Desde moleque Pedro
aprendeu com ele a jogar truco e, tornaram-se grandes parceiros nas partidas de
domingo à tarde. Como bom anfitrião deixava vez ou outra os convidados “patos”
ganharem, como dizia: “para não perder o freguês”.
Nas pescarias que fazia com os
filhos no rio São Francisco, em Três Marias, aproveitava o deslocamento através
da rodovia BR-040 para conversar sobre as coisas da vida. Seu Zé mostrou aos
filhos como se limpa e prepara o peixe, além de ensinar a pescar indicando qual
o tamanho do anzol usar, a espessura e comprimento da linha, a melhor vara, a
maneira correta de cevar o pesqueiro, como avaliar profundidade e o fluxo do
rio.
À beira do rio pescando
descontraído Seu Zé transformava-se: deixava escapulir palavrões, contava
piadas e relembrava o tempo de juventude em Belo Horizonte. Certa vez, contou
que ainda garoto foi trabalhar com o pai na Cia. A. Thun Ltda. Detentora da mina
de Cocuruto, no município de Entre Rios, a empresa explorava minério de ferro
na região na década de 1940 até ser vendida para a CSN (Companhia Siderúrgica
Nacional).
Mais velho de doze irmãos, ele
levava todos os dias a marmita com o almoço para o pai na mina. Como jogava futebol
muito bem encantou com seus dribles o dinamarquês Arns Thun, dono da empresa
que, mandou contratá-lo como apontador com o intuito de tê-lo no seu time de
futebol: o Atum Futebol Clube. Ele, como melhor atacante e outros integrantes do
time eram liberados do trabalho para representar o clube nas competições
regionais, viajando de ônibus por várias cidades mineiras. Assim, “trabalhou”
por quatro anos até se alistar no serviço militar.
Viveu em Belo Horizonte na
década de 1950, onde estudou e trabalhou. Sem esconder a cara de moleque,
contou que tomava o bonde na Avenida Afonso Pena sem pagar a passagem, posicionando-se
na parte da frente do vagão. Quando o cobrador passava recebendo a passagem
mudava de lugar usando o estribo, dando a volta para o lado oposto.
Com fama de paquerador chegou a
namorar três meninas ao mesmo tempo, sem que uma soubesse da outra, é claro e,
em bairros distintos. A fim de não correr riscos desnecessários,
marcava os encontros para além dos contornos da avenida que delimitava as áreas
centrais dos bairros mais distantes.
Trabalhou na RMV (Rede Mineira
de Viação), empresa encampada em 1953 pela RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. Um dia foi tentar a vida em São Paulo. Em visitas
esporádicas à família no
interior, por ocasião da Semana Santa na Igreja de São Sebastião, conheceu a
sua única esposa. Após seis meses de intenso namoro casaram e tiveram seis
filhos, três homens e três mulheres.
Zé Fernandes aposentou-se como
funcionário da Prefeitura de Conselheiro Lafaiete. Não ficou rico de dinheiro,
mas com amor soube a seu modo criar com retidão e honestidade sua família tendo
como base fundamental a sempre presente esposa Diva de Freitas.
Exemplo de ótimo pai trocou
fraldas, cantou embalando nos braços, alimentou, curou a doença, brincou no
parque, levou para passear, sorriu e chorou nas festas e casamentos, pegou pela
mão e guiou pelo caminho do bem, apoiou nas dificuldades da juventude e na vida
adulta manteve-se como conselheiro e amigo fraterno em qualquer situação. A ele
presto minhas homenagens e sincera gratidão por ter sido o pai dedicado que foi.
Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade e a honra de conviver com esse
homem que fez de mim o homem que sou.
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O
escritor Gabriel Garcia
Marquez, no livro Memória de minhas putas tristes, narra o
personagem com noventa anos. No trecho, seus questionamentos sobre a vida, a partir
dos cinquenta anos:
[…] Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A
dos cinquenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo
mundo era mais moço do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita
de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por
uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei
vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me
atravessou a ideia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como
o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e
continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais.
Afinal, chegar aos noventa anos não é para qualquer um!