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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O INUSITADO



Passeava com a minha filhinha de quatro anos na pracinha do bairro, o que tenho feito pelo menos três vezes por semana, durante o período de férias escolares. Depois de se divertir bastante na gangorra, no escorregador e juntar pedrinhas no balde, a menina foi se juntar a outras crianças que brincavam com os cachorrinhos correndo atrás das bolinhas lançadas pelos donos.    

Do alto do morro, observava o vai e vem do agitado trânsito da sinuosa Avenida Cristiano Machado. Distraído, imaginei-me dentro de um daqueles ônibus superlotados no engarrafamento, voltando da árdua jornada de trabalho no final do dia e agradeci por estar bem longe dali. Era mais de cinco horas da tarde e o volume do tráfego de veículos aumentava muito, como ocorre diariamente no horário de pico em Belo Horizonte.

Misturado ao barulho da avenida, o choro da menina chamou minha atenção. Virei e todos estavam em volta dela segurando-a pelo braço. Pensei no pior, que teria sido atacada por um dos cachorros. Mas não, ela foi mordida fortemente por um menino, um pouco mais novo, que deixou cravada a marca dos dentes ferindo seu bracinho. Ao lado, o avô incapaz de orientar o neto a não fazer uma coisa dessas, muito menos com uma garotinha. Fiquei bravo e por pouco não sentei a mão em alguém, saí resmungando para que o velho vacinasse o menino animalzinho. 
 

Minha filha chorou muito, lavei o ferimento e fui embora. Disse para ela ficar longe de garotos como aquele, que machucam outras crianças. Passei na padaria para comprar pão e balinhas para consolar a pequena. No caminho de volta aconteceu o inusitado, um menininho, do nada, apareceu acompanhado da avó e ofereceu à menina uma flor e a chamou de princesinha. Ela ficou muito feliz e agradeceu com um beijo envergonhado. 

Aproveitei para dizer a ela que, aquele sim, era um menino cavalheiro e que merecia sua companhia. As crianças são educadas conforme as atitudes dos adultos, com certeza, aquele menino presenciou essa cena de alguém oferecendo flores a uma mulher e guardou como uma atitude legal. É importante ensinar aos nossos filhos a tratar com carinho as mulheres. 
 

Poder conviver com os filhos durante as férias é gratificante, uma vez que no restante do ano, mal conseguimos perceber o desenrolar das relações entre pais e filhos. Quase sempre cada qual realiza as tarefas ou obrigações cotidianas sem perceber suas atitudes, apenas fazem o que tem que ser feito. As crianças transformam essas relações em algo mais substancial, menos mecânico, nos surpreendendo em tudo. Deixam-nos sem chão, basta ouvi-las sem pressa compartilhando de suas descobertas. 

No primeiro final de semana do ano, o almoço na casa dos avôs foi galinha caipira, especialmente preparada pelo avô, com farinha de milho torrada e tempero mineiro. Coube a mim a parte mais difícil de matar a penosa, colher o sangue e preparar a ave. Tarefa que realizei com naturalidade, num ritual primitivo que aprendi com os moradores da roça. A menina acompanhou de perto o sacrifício. Frisei que a galinha não sofreu, mas ela insistiu que contaria a todos os coleguinhas da escola assim que voltasse às aulas. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

CAUSOS



– Vou lhe contar uma história, um fato real, que aconteceu com seu avô - disse a mãe.


Certo dia, quando retornava à fazenda Maria Preta, cortando caminho por dentro da mata, numa estrada sinuosa, cercada de um lado por paredão e de outro por despenhadeiro, seu avô viu à sua frente seu ex-funcionário insatisfeito, de arma em punho surgido detrás de um cupim.



– Seu Benedito pare agora e não faça nenhum movimento, sua vida acabou e seu corpo ficará no fundo desse despenhadeiro para servir de alimento aos abutres! - disse o homem.

 


Seu avô estava armado, trazia na cintura seu Smith & Wesson calibre 38, que sempre o acompanhava, porém não se atreveu a tocá-lo, o homem estava perto demais. De repente o pequeno Dito, avistou o pai à distância, gritou: - Pai aqui..., saltando e acenando com as duas mãos para o alto. Numa fração de segundo o homem desviou o olhar em direção à criança, tempo suficiente para Benedito perceber que seria seu único momento, sacou do seu revólver e apontou direto no peito do inimigo.




– E agora, seu miserável, a situação se inverteu, vou dar cabo da sua vida - disse Bento.

O homem caiu de joelhos suplicando clemência, alegando que tinha mulher e filhos para criar.

Benedito então disse: - suma da minha frente, pegue suas coisas e desapareça, quando chegar à fazenda se vir rastro seu não terá uma segunda chance, eu e meus funcionários iremos ao seu encalço até no fim do mundo. O homem sumiu na vida...



– Viu meu filho, temos que estar sempre preparados para o imprevisto, porque não sabemos nem o dia, nem a hora e nem a forma que o perigo virá. A mãe contava as histórias de seus antepassados, destacando no final uma mensagem para o menino.



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Outro causo intrigante ocorreu na fazenda do seu Joaquim, lá pelas bandas do sul de Minas, contado pelo Dito.



Envolvidos na disputa por terras, o fazendeiro encomendou a morte do seu desafeto. Contratou o melhor capanga vindo do norte, especialmente para fazer o serviço sujo, de atacar de sobressalto na calada da noite acabando com a vida do homem. O bandido montou campana e ficou à espreita vigiando os passos do fazendeiro, procurando o momento adequado para liquidar a fatura.



Durante uma semana observou o homem jurado de morte. O tiro deveria ser certeiro, bem no meio do peito, pra modo não haver jeito do doutor curar com as ervas medicinais.  O homem tinha mulher e filhos, trabalhava duro na lida diária com o gado e na plantação de café. Chegava em casa à noitinha, depois do por do sol, apeava do cavalo Celestino, amarrando-o ao gradil da varanda e era recebido pela esposa com um beijo gentil. Os filhos pequenos rodeavam o casal abraçando as pernas do pai exausto.



Ele, ainda de pé, pegava o canivete preso à cintura e picava calmamente o fumo de rolo, alisava a palha de milho guardada no bolso da camisa suada e acendia o cigarrinho. Baforava lentamente, curtindo a fumaça que subia aos céus, desenhando trilhas brancas, espantando os mosquitos da noite, enquanto avaliava do trabalho realizado e o que o aguardava para o dia seguinte. Depois, sentava-se na cadeira de balanço, antes de banhar-se do recinto do lado de fora da casa. A rotina simples se repetia diariamente.



O forasteiro já tinha o plano esquematizado na cabeça, bastava por em prática, esperando o melhor momento. O dia fatídico seria com a chegada da lua cheia. Portando sua espingarda Winchester "papo amarelo”, ele escondeu-se atrás do grande pinheiro e esperou, mirando o alvo na varanda.



Como de praxe, o fazendeiro retornou da lida diária, apeou do cavalo e preparou seu cigarro de palha. O pistoleiro observava ao longe, havia decorado seus movimentos, escolheu a hora em que o homem acenderia o cigarro para realizar o disparo.  O fazendeiro então pôs o cigarro na boca e pitou sossegado. Era o momento do tiro, mas um pedaço de brasa caiu do cigarro dentro da bota do homem.



Ele, calmamente, se abaixou para retirar o fumo incandescente. Sem aflição, com total serenidade, jogou fora a brasa e continuou a fumar o cigarro. O capanga viu tudo de longe e desistiu de fazer o serviço. Botou a espingarda no saco e foi embora.



No dia seguinte informou ao mandante do crime que desistira de matar o fazendeiro. E, acrescentou, esse homem merece viver, de hoje em diante quem nele tocar a de se ver comigo. O forasteiro se ofereceu para trabalhar para o fazendeiro tornando-se seu fiel escudeiro.
        


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

90 ANOS



O pai, por certo tempo, fez saborosas cocadas de coco ralado, marrons e brancas. Quando criança adorava ajudar a fazer as cocadas para no final raspar o tacho. Depois, levava a encomenda até a quitandinha mais próxima de casa onde Seu Juca aguardava para serem expostas à venda ao gosto do cliente.

Ele executava a atividade com tal maestria que na inocência parecia ser um hobby ou coisa parecida, jamais imaginava que a venda das cocadas servia de complemento à pouca renda salarial. Nunca viu o pai reclamar, mesmo quando raramente se distraia e o doce queimava passando do ponto ou se a situação estivesse ruim por conta da política econômica do governo.

Na década de 1960, com duas filhas pequenas e a mulher grávida ficou desempregado quando o comércio que mantinha quebrou. Com dificuldades financeiras para sustentar a família, por pouco não aceitou o convite do já famoso médium Zé Arigó, primo de sua esposa, para ir trabalhar na recém-inaugurada capital federal. Com seus contatos Zé Arigó conseguiu-lhe um emprego e foi avisado de que deveria se mandar de imediato para Brasília.

Acabou declinando do emprego avaliando que, apesar da grande oportunidade não seria sensato deixar a mulher grávida com filhos pequenos para criar e aventurar-se na cidade de JK. Virou-se como pôde tentando novamente o comércio, depois um emprego público e outros biscates.

Observador atento entendia de engenharia e, os anos de trabalho como ajudante de pedreiro, pedreiro e pintor na construção civil o capacitaram a ponto de construir sua própria residência. Do alicerce à laje, passando pelo acabamento e pintura ele que fez ou sob a sua supervisão.

Todo o serviço de ampliação posterior da casa e manutenção realizava sozinho. Trocava as lâmpadas, consertava o chuveiro, ferro de passar roupas, enceradeira, montava e desmontava com conhecimento, às vezes tomava choques. Fazia também todo o serviço hidráulico, desde desentupir pia, descarga estragada, cano furado, vazamentos até goteiras no telhado, troca do piso e reforma dos móveis.

Além disso, era cozinheiro de mão cheia, picava o frango com precisão, limpava e cozinhava peixes, preparava o pernil de Natal, sopas saborosas e muito mais. No almoço de domingo preparava, como ninguém, o prato típico da culinária mineira: franco com quiabo, arroz branco, tutu de feijão, couve picadinha refogada com alho torrado, acompanhado de torresmo de barriga e angu de fubá grosso. Para sobremesa, doce de leite caseiro e queijo minas, tudo bem preparado no fogão à lenha.

No truco era dos melhores, jogava baralho com a destreza de mestre e roubava melhor ainda. Desde moleque Pedro aprendeu com ele a jogar truco e, tornaram-se grandes parceiros nas partidas de domingo à tarde. Como bom anfitrião deixava vez ou outra os convidados “patos” ganharem, como dizia: “para não perder o freguês”.

Nas pescarias que fazia com os filhos no rio São Francisco, em Três Marias, aproveitava o deslocamento através da rodovia BR-040 para conversar sobre as coisas da vida. Seu Zé mostrou aos filhos como se limpa e prepara o peixe, além de ensinar a pescar indicando qual o tamanho do anzol usar, a espessura e comprimento da linha, a melhor vara, a maneira correta de cevar o pesqueiro, como avaliar profundidade e o fluxo do rio.

 À beira do rio pescando descontraído Seu Zé transformava-se: deixava escapulir palavrões, contava piadas e relembrava o tempo de juventude em Belo Horizonte. Certa vez, contou que ainda garoto foi trabalhar com o pai na Cia. A. Thun Ltda. Detentora da mina de Cocuruto, no município de Entre Rios, a empresa explorava minério de ferro na região na década de 1940 até ser vendida para a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional).

Mais velho de doze irmãos, ele levava todos os dias a marmita com o almoço para o pai na mina. Como jogava futebol muito bem encantou com seus dribles o dinamarquês Arns Thun, dono da empresa que, mandou contratá-lo como apontador com o intuito de tê-lo no seu time de futebol: o Atum Futebol Clube. Ele, como melhor atacante e outros integrantes do time eram liberados do trabalho para representar o clube nas competições regionais, viajando de ônibus por várias cidades mineiras. Assim, “trabalhou” por quatro anos até se alistar no serviço militar.

Viveu em Belo Horizonte na década de 1950, onde estudou e trabalhou. Sem esconder a cara de moleque, contou que tomava o bonde na Avenida Afonso Pena sem pagar a passagem, posicionando-se na parte da frente do vagão. Quando o cobrador passava recebendo a passagem mudava de lugar usando o estribo, dando a volta para o lado oposto.

Com fama de paquerador chegou a namorar três meninas ao mesmo tempo, sem que uma soubesse da outra, é claro e, em bairros distintos. A fim de não correr riscos desnecessários, marcava os encontros para além dos contornos da avenida que delimitava as áreas centrais dos bairros mais distantes.

Trabalhou na RMV (Rede Mineira de Viação), empresa encampada em 1953 pela RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. Um dia foi tentar a vida em São Paulo. Em visitas esporádicas à família no interior, por ocasião da Semana Santa na Igreja de São Sebastião, conheceu a sua única esposa. Após seis meses de intenso namoro casaram e tiveram seis filhos, três homens e três mulheres.

Zé Fernandes aposentou-se como funcionário da Prefeitura de Conselheiro Lafaiete. Não ficou rico de dinheiro, mas com amor soube a seu modo criar com retidão e honestidade sua família tendo como base fundamental a sempre presente esposa Diva de Freitas.

Exemplo de ótimo pai trocou fraldas, cantou embalando nos braços, alimentou, curou a doença, brincou no parque, levou para passear, sorriu e chorou nas festas e casamentos, pegou pela mão e guiou pelo caminho do bem, apoiou nas dificuldades da juventude e na vida adulta manteve-se como conselheiro e amigo fraterno em qualquer situação. A ele presto minhas homenagens e sincera gratidão por ter sido o pai dedicado que foi. Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade e a honra de conviver com esse homem que fez de mim o homem que sou.
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O escritor Gabriel Garcia Marquez, no livro Memória de minhas putas tristes, narra o personagem com noventa anos. No trecho, seus questionamentos sobre a vida, a partir dos cinquenta anos: 


[…] Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinquenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a ideia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais. 
 
 Afinal, chegar aos noventa anos não é para qualquer um!









terça-feira, 20 de janeiro de 2015

PESCARIA



Durante as férias o pai planejou uma pescaria em São Gonçalo. Saíram ainda de madrugada a tempo de beber o leite fresquinho ordenhado das vacas. Era a fazenda do Zé Caetano, lugar de parada certa para tomar um café fresquinho passado na hora com bolo de fubá e queijo, enquanto descansavam a caminho dos pesqueiros, próximo ao rancho do Chico Bastos.



Debaixo do bananal, lugar de terra preta boa e macia, Zé cavou o chão com a enxada à procura de minhocas graúdas que serviriam de isca. Os dois se embrenharam mata adentro até o córrego repleto de lambaris que, não demoraram a aparecer enchendo dois samburás. Desciam margeando o riacho, delongando um pouco mais nos melhores pesqueiros. O tempo passava devagar e quando a fome apertava o pai tirava de dentro da mochila um sanduíche de pão com mortadela e ovo mexido.



Pedrinho entretido com os peixinhos que roubavam sua isca na vara, nem percebeu o pai se afastando de onde estavam à procura de peixes maiores. Nisso, o tempo, que estava firme e de sol brilhante, com céu sem nuvens, virou de repente escurecendo trazendo inesperado temporal com fortes rajadas de vento.



O menino, apreensivo, com medo de estar perdido no meio do nada, gritou pelo pai, que assoviou de volta várias vezes. Pedrinho guiou-se pelos assovios até chegar ao bambuzal onde o pai estava escondido se protegendo da chuva. A água que penetrava entre os bambus represada na aba do chapéu de palha escorria no rosto do menino.



– Pai, porque não foi ao meu encontro? - perguntou.

 – Eu sabia bem o lugar onde estava e mantinha contato visual, apesar de você achar que estava perdido.

– Espetei o dedo com uma ferpa.

– Venha cá, deixe-me ver, retirando o fragmento de bambu com a unha. Faça xixi sobre o ferimento - orientou.

– É sério pai, quer que eu mije no machucado? – perguntou o menino com olhos arregalados.

Claro, o sal da urina vai evitar que infeccione. Em casa faremos um curativo correto com mertiolate.



A chuva de verão não demorou a passar dando lugar novamente ao sol forte. Eles retornaram da aventura com o samburá cheio de peixes de variadas espécies.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

FANTASIA



No seu aniversário de sete anos Pedro ganhou da mãe de presente cartola e varinha mágica. Sentindo-se um verdadeiro mágico saiu por aí transformando tudo e todos. Tocou o pai e imediatamente ele virou gigante, tocou o irmão mais novo e virou macaco, tocou na mãe e virou a Dona Gata. Tocou de tudo com a varinha criando um mundo imaginário à sua volta.



O gato virou porco, a árvore plantinha, a areia virou ouro, o tanque uma piscina, a vassoura um cavalo, a mesa virou baú, as cadeiras viraram anões e fadas, o quintal um jardim, o quartinho virou casa dos anões, o velocípede virou ônibus, o passarinho na gaiola virou borboleta e ganhou liberdade, o coelho virou rato, o galinho garnizé transformou-se num grande galo branco companheiro inseparável de todas as aventuras.



Na fantasia de criança somente o Dunga, o cãozinho preto e branco sabia o que se passava, sendo seu fiel confidente. O cão acompanhava tudo de perto pulando e correndo ao seu lado. O menino vivia uma realidade paralela que se concretizava à noite nos sonhos. Realizava sua própria história viajando todas as noites a mundos distantes descritos nos livros de história e revistas em quadrinho.



Cavalgava no galo longas distâncias em viagens fantásticas. Ajudou Pinóquio a salvar o pai Gepeto com o seu galo voador, entrando e saindo da barriga da baleia e, retornando com segurança à terra firme. Em Alice no País das Maravilhas entrou no buraco do coelho com o galo e o grilo falante, que adorava proferir provérbios em forma de charadas. Elas deveriam ser completadas definindo assim o próximo episódio, onde aquele que decifrou a frase se tornava o personagem principal da história. Uma passagem secreta no fundo do quintal dava acesso à toca do coelho, continuando assim a saga de Alice em terras mineiras.



Na primeira viagem, o grilo falante foi logo perguntando: – Quem corre cansa, quem anda...?

...alcança – respondeu o gigante.

O gigante caminhou a passos largos indo em direção a Pedrinho. Imóvel sem saber o que fazer o garoto foi salvo pelo galo voador, antes que o gigante alcançasse seus cabelos.

 – Rápido, diga outra frase – ordenou ao grilo falante.

 – Cobra que não anda...? – disse o grilo esbaforido, fugindo do gigante. 

...não engole sapo – respondeu o macaco, saltando baixo de gralho em galho, puxando o rabo do porco.

– Quero que todos me sigam - disse o macaco. Por terra e pelo ar todos os animais da floresta seguiram o macaco.



Durante o dia repassava os acontecimentos da noite anterior para os anões e os animais que deixaram de participar da história. O macaco era sempre o mais interessado em saber, ouvindo atentamente o relato. Maluco para participar, ficava desinquieto pulando de um lado para o outro puxando a orelha do porco. Pedrinho avisou que não havia chegado ainda o momento porque ele era muito pequeno e poderia se perder no caminho de volta. Com a desculpa enrolou o irmãozinho por mais um tempo. Quando esquecia algum detalhe da viagem, prontamente o cão e o galo ajudavam na tarefa de lembrar.



Um dia sua mãe quis saber o que estava acontecendo, pois o menino passava a tarde conversando com as cadeiras. Ele revelou o seu segredo, sob o juramento da mãe de que não contaria a ninguém e, caso o fizesse, se transformaria em Dona Gata para sempre. A mãe tornou-se sua confidente, além do cão e do galo.



Se outras pessoas aparecessem por perto tratava logo de mudar de assunto, despistando-os para não deixar perceber sobre o que conversavam com os amiguinhos imaginários. O pai participava sem saber, pois Pedrinho dizia palavras desconexas e o gigante ocupado balançava a cabeça concordando ou não e, certas vezes, até emitia opinião qualquer.