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domingo, 24 de maio de 2015

O CASTELO

O Castelo

A estrada de chão batido serpenteando longa e sinuosa transformava em labirintos a mata nativa, único acesso à propriedade cercada de pinheiros centenários conduzindo ao tradicional educandário católico. Pedrinho observava através do para-brisa da caminhonete o imponente prédio que despontava ao alto à medida que o veículo avançava em meio à floresta aproximando pouco a pouco da entrada principal.

O Castelo de arquitetura estilo alemã, desenha nas suas extensões laterais enorme pássaro de asas abertas representando o Divino Espírito Santo. A capela é a cabeça da ave e o corpo os anexos com acesso aos dormitórios, refeitórios, salas de aula e demais instalações. Enquanto viajava, o garoto visualizou um cenário de mistério e magia que remetia aos tempos medievais de dragões, reis, princesas, guerreiros e criaturas estranhas.

Pedrinho e o pai foram recebidos pelo padre superior Josué. Ele os acolheu na entrada do alpendre e indicou o local da hospedagem dos internos, onde as malas deveriam ser desfeitas. No dormitório, as camas eram posicionadas lado a lado ao redor das paredes com acesso livre aos armários individuais e às saídas para os lavatórios e banheiros comunitários. Ao lado das camas havia criados com repartição para sapatos e chinelos e gaveta para os produtos de higiene pessoal. Cada seminarista era responsável por manter a sua cama sempre limpa e arrumada. Ele desfez as malas com a ajuda do pai, escolheu uma cama disponível no fundo do corredor, perto da janela e deitou para testar a densidade do colchão de espuma nada confortável. 

Dias antes, a mãe preparou toda a bagagem com roupas para o semestre. A mala nova com dois cobertores, roupas de cama e de banho, calças e camisas, bermudas, cuecas, meias e demais itens. O material foi todo etiquetado com o número “321”, que seria seu código de identificação. Não podia faltar a Bíblia Sagrada, com a dedicatória da mãe: “Meu querido filho, eis o livro dos livros, ele contém luz para vos nutrir e conforto para vos alegrar, lede-o e praticai-o para tornares digno de seus ensinamentos”. Havia também foto dos pais e dos irmãos e, escondidas por debaixo das roupas, várias revistinhas em quadrinhos. O pai retornou à família antes do escurecer, pois não sentia segurança em dirigir à noite.

O educandário está localizado no marco da Estrada Real de Latitude S 21º 19’ 17 e Longitude W 43º 42’ 32. Na época, final da década de 1970 era tudo mais difícil; o pai parou várias vezes para consultar o mapa rodoviário desenhado pelo amigo taxista que conhecia bem a região. Dirigiu através da BR-040, ainda não duplicada, até Barbacena e de lá até a cidade de Antônio Carlos pela MG-135. Na estrada, cruzes brancas decoravam a beira do caminho próximo ao cruzamento com a linha férrea. Cerca de quinze minutos do centro e mais alguns quilômetros na estrada de terra até o destino.

Quando aceitou o convite para ingressar na seara sacerdotal Pedrinho viu alterados os rumos da sua vida. Aos doze anos foi o primeiro e decisivo passo que deu na sua curta trajetória de vida, deixando-o frente a frente com o destino. Estava prestes a vivenciar os momentos mais marcantes da sua infância.

Era hora de partir. Ele entrou no banheiro ainda sonolento. A dor forte na boca do estômago revirava a barriga com um calafrio que subia pela coluna vertebral deixando-o zonzo. Após as despedidas de praxe, sem mais delongas, Pedrinho
 entrou na caminhonete. A mãe recolheu o choro e foi rezar na janela que dava pra rua, seguindo com o olhar o veículo se distanciando. Depois de abraçar os irmãos, ele prometeu escrever cartas a todos contando as novidades.

A cidade ficou na curva da praça, mantendo em seus contornos as amizades da escola, os colegas de rua, da igreja e do futebol, o cão preto e branco Dunga, a gatinha Thiane e o galo de estimação.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

QUINCAS DAS PEDRAS

QUINCAS DAS PEDRAS

O Senhor Joaquim das Pedras, mais conhecido como Seu Quincas das Pedras, viveu em Cristiano Otoni, na primeira metade do Século XX. O que sei, contado por minha mãe Diva de Freitas e, que também, não soube lá me dizer as características físicas do sujeito, se era alto ou baixo, gordo ou magro, calvo ou cabeludo, mas imagino que provavelmente usava bigode como era costume da época, é que foi um bom homem, o que pode ser comprovado por seus possíveis descendentes.

O fato é que não conheci o tal Quincas das Pedras, como também não conheci em vida o meu avô Benedito Ribeiro, somente através de fotos e das belas histórias relatadas por Diva, sua filha caçula. Um homem de respeito que criou doze filhos, seis homens e seis mulheres com o suor do rosto na lida diária dos afazeres na fazenda Maria Preta, em Água Limpa. Era bom em matemática, apesar do ensino primário e, também versado sobre as coisas da vida. Pessoa idônea, era escolhido entre os cidadãos lafaietenses para compor o júri no Tribunal de Justiça da cidade.    

Em certa ocasião Benedito Ribeiro se viu em apuros dos grandes. Era o primeiro fiador em empréstimo de alto valor contraído por um homem de negócios da cidade, tendo a sua casa posta em garantia da dívida. Como o individuo não honrou os seus compromissos com o credor, o banco avisou que liquidaria as promissórias e a casa seria posta à venda para cobrir a fatura. Benedito, já mais velho, mudou-se de vez com a família para Lafaiete, comprando com o dinheiro da venda da fazenda a casa no bairro Chapada.

Rosa, sua esposa, sem saber como desfazer tamanha desgraça, aumentou suas orações. O casal estava para ser despejado, faltavam poucos dias do prazo dado pelo banco para que a dívida fosse paga, caso contrário a casa seria vendida. Interessados de plantão não faltavam, informados pelo dono do cartório depositário dos documentos, pronto para lucrar com a transferência do imóvel, deixando em desabrigo a família.

Foi então que Ribeiro procurou pelo amigo Antônio Franco, compadre de longa data, de amizade fraterna e irmandade que não existe mais nos tempos atuais e, relatou a gravidade dos fatos. O compadre vendo o desespero do amigo logo se mostrou solidário e ofereceu seu apoio para intermediar uma conversa com o dono da dívida, conhecido como Quincas das Pedras, em Cristiano Otoni. Influente na região, como homem honrado e político compromissado, Franco e Ribeiro foram de Jeep até a cidade vizinha.

Chegando lá, Franco conversou longamente a sós com Quincas das Pedras, enquanto Ribeiro aguardava no carro o desfecho da prosa. Foram sem dúvida os minutos de espera mais agonizantes da sua vida. Por sim, apareceram Franco e Quincas das Pedras conversando animadamente caminhado até o Jeep. 

– Então esse é homem! - afirmou. – Pois fique sabendo que a partir de agora o senhor não deve mais nada - disse, rasgando em pedaços as promissórias. – Vai cuidar da sua família que você é um homem de valor.

Benedito só faltou beijar as suas mãos e partiu aliviado por ter tirado o enorme peso das costas. Diva não sobe dizer qual foi a conversa que os dois tiveram. Viveram na casa até o casal morrer e o bem ser repartido entre os filhos. Foi eternamente grato ao compadre Antônio Franco.  


quarta-feira, 15 de abril de 2015

CURA ESPIRITUAL

CURA ESPIRITUAL

Era uma noite fria de junho, início do inverno no hemisfério sul, época em que há maior proliferação de doenças do sistema respiratório. Diva ficou acamada, bastante debilitada com gripe forte, dores no corpo e febre alta. Preferiu ficar em casa se recuperando a arriscar um agravamento do quadro gripal, enquanto os filhos e o marido foram a um compromisso de família.

Enfraquecida, adormeceu e sonhou com falecido pai Benedito Ribeiro. Suplicou por sua ajuda, para que intercedesse junto aos céus a fim de curar-lhe a doença. O pai lamentou, pois nada poderia fazer. Depois pediu que ela aguardasse um tempo e voltou na companhia do doutor Mário Rodrigues Pereira, médico conceituado e amigo da família. “Filha querida, eu não entendo de doenças, mas trouxe o amigo doutor”, disse afastando-se.

Os dois vieram do espaço, envoltos em áurea cintilante num campo florido e perfumado de jasmim. Diva foi convidada a viajar com eles, onde dominava a paz e o silêncio profundo. Com gestos singelos o pai levou a filha para conhecer as maravilhas do paraíso.

De volta ao quarto, o médico estava postado diante da cama onde Diva jazia abatida pela forte gripe. Mário conversava com Benedito palavras inaudíveis sobre o estado preocupante da filha. O pai confiava ao médico a vida da própria filha.

De repente, o marido entrou no quarto rompendo o silêncio do sono. Conduzido por uma força sobrenatural, trouxe em mãos uma toalha molhada em água quente, abriu a camisola da esposa ensopada de suor e pôs sobre o seu dorso febril o pano aquecido, cobrindo com o cobertor. Como em estado de transe ou sonambulismo deixou o quarto do casal e voltou a dormir no quarto de hóspedes.

Diva presenciou o marido atuando pelas mãos do médico, saltou da cama e descartou grande quantidade de muco, aliviando o peito dolorido. Já curada, adormeceu enquanto o dia amanhecia devagar, trazendo com ele o sol tímido das manhãs de inverno.

Ao acordar, a mãe contou aos filhos o que aconteceu. A visita providencial do pai com o amigo médico e o desfecho com a cura da doença por intermédio espiritual. O marido não soube dizer o que o fez agir daquele jeito, apenas levantou-se e de forma instintiva, usou dos recursos que tinha em casa, esquentou a água no fogão, emergiu a toalha para reter o calor do líquido e colou sobre o peito da mulher convalescente.
Diva não recebeu novamente a visita de Benedito, mas soube por meio do sonho que ele estava muito bem em outra dimensão, na companhia de bons amigos e feliz por ter cumprindo na terra o seu papel de pai exemplar.




quarta-feira, 8 de abril de 2015

ANTES ERA SÓ TRISTEZA, HOJE É FELICIDADE

ANTES ERA SÓ TRISTEZA, HOJE É FELICIDADE



De segunda a sábado, ele acorda às quatro horas da manhã, toma um café preto e sai de casa ainda de madrugada para mais uma jornada que se inicia à beira da rodovia BR-040, em Cristiano Otoni, pedindo carona para Conselheiro Lafaiete, onde faça chuva ou faça sol, trabalha vendendo gás de cozinha de porta em porta. Com seu grito forte e inconfundível “É IEU... É IEU...” desperta os cachorros da vizinhança que em coro anunciam a sua chegada, chamando a atenção dos fregueses que necessitam de gás.

Em uma breve conversa, de sorriso largo “É IEU” revela que é pai de dez filhos. Criou-os basicamente sozinho, depois que a esposa abandonou as crianças à própria sorte. As gêmeas caçulas tinham apenas quatro anos de idade e ainda mamavam no peito. “É IEU” não se deixou abater, arregaçou as mangas e se virou para vender “no grito” mais e mais botijões de gás, transportados em carroça puxada por uma pacata égua. Minha filhinha, como muitas crianças, corria para a janela e acenava para o “É IEU”, que retribuía com um sorriso desdentado. “Lá vai a eguinha pocotó”, me chamava para ver com ela.

Não faltou oferta para que cedesse os filhos à adoção. Mas ele resistiu, queria ter todos por perto. Se fosse para passar fome, que passassem todos juntos; chorariam juntos e, também, se alimentariam juntos do que provinha da venda de gás. Hoje, aos 73 anos e com energia de sobra,“É IEU” tem mais de vinte e cinco netos e bisnetos. “O que antes era só tristeza, hoje é felicidade quando reúne toda a família nos finais de semana”, conta feliz. “Como poderia olhar na cara de meus filhos se os visse espalhados por aí sem saber quem era o pai? Foi com muita dificuldade que criei cada um dos meus cinco filhos e cinco filhas”, afirma.

Há mais de vinte anos “É IEU” revende gás percorrendo as ruas da parte baixa da cidade, como é conhecida a região da cidade localizada abaixo da linha férrea da MRS. Hoje em dia ele conta com a ajuda do neto, um negro forte que carrega nos ombros o botijão de gás de treze quilos como se fosse um saco de plumas. Anunciando sua chegada aos gritos, “É IEU” ensina ao neto as preferências dos fregueses, as casas onde é bem recebido e, até mesmo, onde recebe um agrado a mais, uma gorjeta polpuda ou mesmo roupas usadas. 

Proibiram “É IEU” de vender o seu gás usando a carroça, o que facilitaria em muito seu ofício, que agora precisa ser executado usando a força bruta dos braços do neto. Proibiram porque é mais fácil proibir do que regulamentar o transporte legal por tração animal, como consta do Código de Trânsito Brasileiro. Talvez porque competia no trânsito com sua carroça “atrapalhando” a entrega dos motoqueiros enlouquecidos. Talvez porque inexista um serviço de zoonose eficiente no município, assim como demais outros serviços à população.


Mas, não foi a ineficiência de muitos que impediu “É IEU” de prosseguir. Pelo contrário, cada vez mais e mais fregueses são conquistados no grito, em um marketing direto e pessoal dos mais eficazes que já presenciei, conquistando novos fregueses e mantendo a fidelidade dos moradores lafaietenses que o conhecem de longa data.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

TARDE DE FUTEBOL NO MINEIRÃO

Domingo é dia de futebol no Mineirão. Estava para começar um dos maiores clássicos do esporte nacional, “Cruzeiro x Atlético”. Partida válida pela 14ª rodada do Brasileirão Série A - 1999. A esposa estava grávida de quatro meses da menina Giulia. Aguardávamos o início da partida na tribuna de convidados, espaço confortável debaixo das cabines de imprensa do estádio.

O lado esquerdo do estádio cobriu-se de um manto preto e branco, expressão máxima da paixão atleticana. Um espetáculo digno das maiores torcidas do Brasil. Aquele foi o momento mais importante da tarde de futebol, quando entrou em campo o time do Galo Forte Vingador. O instante eternizou-se na revelação da mãe: “a menina em meu ventre vibrava junto com a massa atleticana, fazendo tremer a estrutura de concreto”. Giulia nasceu atleticana e acompanha o pai ao Mineirão, sem se cansar de gritar bem alto “Galô ôôôô ôôôô ôô, Galô, Galô,Galô...”.

Nasci no seio de uma família de maioria cruzeirense, o quinto de seis filhos. Meu pai e os quatro primeiros filhos torcem pelo Cruzeiro. Eu e o caçula torcemos pelo Atlético. Acredito que o paizinho descuidou-se e, quando percebeu, eu já era atleticano doente. Um grande galo branco, enorme para meus três anos de idade, foi presente dele. O sentimento de afeição pela ave foi imediato. Com ajuda da Chica, me agarrava em suas asas abertas, sendo, literalmente, arrastado terreiro abaixo, voando rasante acima da plantação de feijão ou do que sobrava dela.

Forte e bom de briga o galo tomou conta do galinheiro. Impunha respeito com sua grande crista vermelha e espora afiada, confirmando a fama de valente que espalhara entre os demais animais da casa. Gatos e cachorros, ninguém chegava perto, muito menos as crianças da família ou da vizinhança. Conquistei sua confiança alimentando-o com punhados de milho oferecido na palma da mão, através de fendas no cercado. O galo passou a ser meu melhor amigo e brinquedo de verdade.

De tão bravo que era o pai ameaçou matar o galo depois, disse que levaria o animal para a roça. A mãe teve que intervir a favor da permanência do galo na casa. Sua justificativa foi de que não adiantaria nada matá-lo, pois a carne dura não cozinharia nem na pressão. Levá-lo para a zona rural em nada ajudaria. Mãezinha notou desde o início o apego pelo galo e registrou a amizade no álbum de fotografia da família. A parceria durou muitos anos e, aonde fosse, carregava debaixo do braço o galo branco de estimação.


Já crescido, ganhei de presente do primo adulto uma camisa que trouxe de sua viagem à França. No bolso estava bordado um galinho, símbolo da seleção francesa. Os anos se passaram, mas ficou a referência de criança. O clube de futebol que tem o galo como mascote é o meu time do coração e das minhas filhas. O clube que amo, torço de corpo e alma. Uma vez até morrer!





quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O INUSITADO



Passeava com a minha filhinha de quatro anos na pracinha do bairro, o que tenho feito pelo menos três vezes por semana, durante o período de férias escolares. Depois de se divertir bastante na gangorra, no escorregador e juntar pedrinhas no balde, a menina foi se juntar a outras crianças que brincavam com os cachorrinhos correndo atrás das bolinhas lançadas pelos donos.    

Do alto do morro, observava o vai e vem do agitado trânsito da sinuosa Avenida Cristiano Machado. Distraído, imaginei-me dentro de um daqueles ônibus superlotados no engarrafamento, voltando da árdua jornada de trabalho no final do dia e agradeci por estar bem longe dali. Era mais de cinco horas da tarde e o volume do tráfego de veículos aumentava muito, como ocorre diariamente no horário de pico em Belo Horizonte.

Misturado ao barulho da avenida, o choro da menina chamou minha atenção. Virei e todos estavam em volta dela segurando-a pelo braço. Pensei no pior, que teria sido atacada por um dos cachorros. Mas não, ela foi mordida fortemente por um menino, um pouco mais novo, que deixou cravada a marca dos dentes ferindo seu bracinho. Ao lado, o avô incapaz de orientar o neto a não fazer uma coisa dessas, muito menos com uma garotinha. Fiquei bravo e por pouco não sentei a mão em alguém, saí resmungando para que o velho vacinasse o menino animalzinho. 
 

Minha filha chorou muito, lavei o ferimento e fui embora. Disse para ela ficar longe de garotos como aquele, que machucam outras crianças. Passei na padaria para comprar pão e balinhas para consolar a pequena. No caminho de volta aconteceu o inusitado, um menininho, do nada, apareceu acompanhado da avó e ofereceu à menina uma flor e a chamou de princesinha. Ela ficou muito feliz e agradeceu com um beijo envergonhado. 

Aproveitei para dizer a ela que, aquele sim, era um menino cavalheiro e que merecia sua companhia. As crianças são educadas conforme as atitudes dos adultos, com certeza, aquele menino presenciou essa cena de alguém oferecendo flores a uma mulher e guardou como uma atitude legal. É importante ensinar aos nossos filhos a tratar com carinho as mulheres. 
 

Poder conviver com os filhos durante as férias é gratificante, uma vez que no restante do ano, mal conseguimos perceber o desenrolar das relações entre pais e filhos. Quase sempre cada qual realiza as tarefas ou obrigações cotidianas sem perceber suas atitudes, apenas fazem o que tem que ser feito. As crianças transformam essas relações em algo mais substancial, menos mecânico, nos surpreendendo em tudo. Deixam-nos sem chão, basta ouvi-las sem pressa compartilhando de suas descobertas. 

No primeiro final de semana do ano, o almoço na casa dos avôs foi galinha caipira, especialmente preparada pelo avô, com farinha de milho torrada e tempero mineiro. Coube a mim a parte mais difícil de matar a penosa, colher o sangue e preparar a ave. Tarefa que realizei com naturalidade, num ritual primitivo que aprendi com os moradores da roça. A menina acompanhou de perto o sacrifício. Frisei que a galinha não sofreu, mas ela insistiu que contaria a todos os coleguinhas da escola assim que voltasse às aulas. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

CAUSOS



– Vou lhe contar uma história, um fato real, que aconteceu com seu avô - disse a mãe.


Certo dia, quando retornava à fazenda Maria Preta, cortando caminho por dentro da mata, numa estrada sinuosa, cercada de um lado por paredão e de outro por despenhadeiro, seu avô viu à sua frente seu ex-funcionário insatisfeito, de arma em punho surgido detrás de um cupim.



– Seu Benedito pare agora e não faça nenhum movimento, sua vida acabou e seu corpo ficará no fundo desse despenhadeiro para servir de alimento aos abutres! - disse o homem.

 


Seu avô estava armado, trazia na cintura seu Smith & Wesson calibre 38, que sempre o acompanhava, porém não se atreveu a tocá-lo, o homem estava perto demais. De repente o pequeno Dito, avistou o pai à distância, gritou: - Pai aqui..., saltando e acenando com as duas mãos para o alto. Numa fração de segundo o homem desviou o olhar em direção à criança, tempo suficiente para Benedito perceber que seria seu único momento, sacou do seu revólver e apontou direto no peito do inimigo.




– E agora, seu miserável, a situação se inverteu, vou dar cabo da sua vida - disse Bento.

O homem caiu de joelhos suplicando clemência, alegando que tinha mulher e filhos para criar.

Benedito então disse: - suma da minha frente, pegue suas coisas e desapareça, quando chegar à fazenda se vir rastro seu não terá uma segunda chance, eu e meus funcionários iremos ao seu encalço até no fim do mundo. O homem sumiu na vida...



– Viu meu filho, temos que estar sempre preparados para o imprevisto, porque não sabemos nem o dia, nem a hora e nem a forma que o perigo virá. A mãe contava as histórias de seus antepassados, destacando no final uma mensagem para o menino.



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Outro causo intrigante ocorreu na fazenda do seu Joaquim, lá pelas bandas do sul de Minas, contado pelo Dito.



Envolvidos na disputa por terras, o fazendeiro encomendou a morte do seu desafeto. Contratou o melhor capanga vindo do norte, especialmente para fazer o serviço sujo, de atacar de sobressalto na calada da noite acabando com a vida do homem. O bandido montou campana e ficou à espreita vigiando os passos do fazendeiro, procurando o momento adequado para liquidar a fatura.



Durante uma semana observou o homem jurado de morte. O tiro deveria ser certeiro, bem no meio do peito, pra modo não haver jeito do doutor curar com as ervas medicinais.  O homem tinha mulher e filhos, trabalhava duro na lida diária com o gado e na plantação de café. Chegava em casa à noitinha, depois do por do sol, apeava do cavalo Celestino, amarrando-o ao gradil da varanda e era recebido pela esposa com um beijo gentil. Os filhos pequenos rodeavam o casal abraçando as pernas do pai exausto.



Ele, ainda de pé, pegava o canivete preso à cintura e picava calmamente o fumo de rolo, alisava a palha de milho guardada no bolso da camisa suada e acendia o cigarrinho. Baforava lentamente, curtindo a fumaça que subia aos céus, desenhando trilhas brancas, espantando os mosquitos da noite, enquanto avaliava do trabalho realizado e o que o aguardava para o dia seguinte. Depois, sentava-se na cadeira de balanço, antes de banhar-se do recinto do lado de fora da casa. A rotina simples se repetia diariamente.



O forasteiro já tinha o plano esquematizado na cabeça, bastava por em prática, esperando o melhor momento. O dia fatídico seria com a chegada da lua cheia. Portando sua espingarda Winchester "papo amarelo”, ele escondeu-se atrás do grande pinheiro e esperou, mirando o alvo na varanda.



Como de praxe, o fazendeiro retornou da lida diária, apeou do cavalo e preparou seu cigarro de palha. O pistoleiro observava ao longe, havia decorado seus movimentos, escolheu a hora em que o homem acenderia o cigarro para realizar o disparo.  O fazendeiro então pôs o cigarro na boca e pitou sossegado. Era o momento do tiro, mas um pedaço de brasa caiu do cigarro dentro da bota do homem.



Ele, calmamente, se abaixou para retirar o fumo incandescente. Sem aflição, com total serenidade, jogou fora a brasa e continuou a fumar o cigarro. O capanga viu tudo de longe e desistiu de fazer o serviço. Botou a espingarda no saco e foi embora.



No dia seguinte informou ao mandante do crime que desistira de matar o fazendeiro. E, acrescentou, esse homem merece viver, de hoje em diante quem nele tocar a de se ver comigo. O forasteiro se ofereceu para trabalhar para o fazendeiro tornando-se seu fiel escudeiro.
        


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

90 ANOS



O pai, por certo tempo, fez saborosas cocadas de coco ralado, marrons e brancas. Quando criança adorava ajudar a fazer as cocadas para no final raspar o tacho. Depois, levava a encomenda até a quitandinha mais próxima de casa onde Seu Juca aguardava para serem expostas à venda ao gosto do cliente.

Ele executava a atividade com tal maestria que na inocência parecia ser um hobby ou coisa parecida, jamais imaginava que a venda das cocadas servia de complemento à pouca renda salarial. Nunca viu o pai reclamar, mesmo quando raramente se distraia e o doce queimava passando do ponto ou se a situação estivesse ruim por conta da política econômica do governo.

Na década de 1960, com duas filhas pequenas e a mulher grávida ficou desempregado quando o comércio que mantinha quebrou. Com dificuldades financeiras para sustentar a família, por pouco não aceitou o convite do já famoso médium Zé Arigó, primo de sua esposa, para ir trabalhar na recém-inaugurada capital federal. Com seus contatos Zé Arigó conseguiu-lhe um emprego e foi avisado de que deveria se mandar de imediato para Brasília.

Acabou declinando do emprego avaliando que, apesar da grande oportunidade não seria sensato deixar a mulher grávida com filhos pequenos para criar e aventurar-se na cidade de JK. Virou-se como pôde tentando novamente o comércio, depois um emprego público e outros biscates.

Observador atento entendia de engenharia e, os anos de trabalho como ajudante de pedreiro, pedreiro e pintor na construção civil o capacitaram a ponto de construir sua própria residência. Do alicerce à laje, passando pelo acabamento e pintura ele que fez ou sob a sua supervisão.

Todo o serviço de ampliação posterior da casa e manutenção realizava sozinho. Trocava as lâmpadas, consertava o chuveiro, ferro de passar roupas, enceradeira, montava e desmontava com conhecimento, às vezes tomava choques. Fazia também todo o serviço hidráulico, desde desentupir pia, descarga estragada, cano furado, vazamentos até goteiras no telhado, troca do piso e reforma dos móveis.

Além disso, era cozinheiro de mão cheia, picava o frango com precisão, limpava e cozinhava peixes, preparava o pernil de Natal, sopas saborosas e muito mais. No almoço de domingo preparava, como ninguém, o prato típico da culinária mineira: franco com quiabo, arroz branco, tutu de feijão, couve picadinha refogada com alho torrado, acompanhado de torresmo de barriga e angu de fubá grosso. Para sobremesa, doce de leite caseiro e queijo minas, tudo bem preparado no fogão à lenha.

No truco era dos melhores, jogava baralho com a destreza de mestre e roubava melhor ainda. Desde moleque Pedro aprendeu com ele a jogar truco e, tornaram-se grandes parceiros nas partidas de domingo à tarde. Como bom anfitrião deixava vez ou outra os convidados “patos” ganharem, como dizia: “para não perder o freguês”.

Nas pescarias que fazia com os filhos no rio São Francisco, em Três Marias, aproveitava o deslocamento através da rodovia BR-040 para conversar sobre as coisas da vida. Seu Zé mostrou aos filhos como se limpa e prepara o peixe, além de ensinar a pescar indicando qual o tamanho do anzol usar, a espessura e comprimento da linha, a melhor vara, a maneira correta de cevar o pesqueiro, como avaliar profundidade e o fluxo do rio.

 À beira do rio pescando descontraído Seu Zé transformava-se: deixava escapulir palavrões, contava piadas e relembrava o tempo de juventude em Belo Horizonte. Certa vez, contou que ainda garoto foi trabalhar com o pai na Cia. A. Thun Ltda. Detentora da mina de Cocuruto, no município de Entre Rios, a empresa explorava minério de ferro na região na década de 1940 até ser vendida para a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional).

Mais velho de doze irmãos, ele levava todos os dias a marmita com o almoço para o pai na mina. Como jogava futebol muito bem encantou com seus dribles o dinamarquês Arns Thun, dono da empresa que, mandou contratá-lo como apontador com o intuito de tê-lo no seu time de futebol: o Atum Futebol Clube. Ele, como melhor atacante e outros integrantes do time eram liberados do trabalho para representar o clube nas competições regionais, viajando de ônibus por várias cidades mineiras. Assim, “trabalhou” por quatro anos até se alistar no serviço militar.

Viveu em Belo Horizonte na década de 1950, onde estudou e trabalhou. Sem esconder a cara de moleque, contou que tomava o bonde na Avenida Afonso Pena sem pagar a passagem, posicionando-se na parte da frente do vagão. Quando o cobrador passava recebendo a passagem mudava de lugar usando o estribo, dando a volta para o lado oposto.

Com fama de paquerador chegou a namorar três meninas ao mesmo tempo, sem que uma soubesse da outra, é claro e, em bairros distintos. A fim de não correr riscos desnecessários, marcava os encontros para além dos contornos da avenida que delimitava as áreas centrais dos bairros mais distantes.

Trabalhou na RMV (Rede Mineira de Viação), empresa encampada em 1953 pela RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. Um dia foi tentar a vida em São Paulo. Em visitas esporádicas à família no interior, por ocasião da Semana Santa na Igreja de São Sebastião, conheceu a sua única esposa. Após seis meses de intenso namoro casaram e tiveram seis filhos, três homens e três mulheres.

Zé Fernandes aposentou-se como funcionário da Prefeitura de Conselheiro Lafaiete. Não ficou rico de dinheiro, mas com amor soube a seu modo criar com retidão e honestidade sua família tendo como base fundamental a sempre presente esposa Diva de Freitas.

Exemplo de ótimo pai trocou fraldas, cantou embalando nos braços, alimentou, curou a doença, brincou no parque, levou para passear, sorriu e chorou nas festas e casamentos, pegou pela mão e guiou pelo caminho do bem, apoiou nas dificuldades da juventude e na vida adulta manteve-se como conselheiro e amigo fraterno em qualquer situação. A ele presto minhas homenagens e sincera gratidão por ter sido o pai dedicado que foi. Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade e a honra de conviver com esse homem que fez de mim o homem que sou.
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O escritor Gabriel Garcia Marquez, no livro Memória de minhas putas tristes, narra o personagem com noventa anos. No trecho, seus questionamentos sobre a vida, a partir dos cinquenta anos: 


[…] Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinquenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço do que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a ideia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais. 
 
 Afinal, chegar aos noventa anos não é para qualquer um!









terça-feira, 20 de janeiro de 2015

PESCARIA



Durante as férias o pai planejou uma pescaria em São Gonçalo. Saíram ainda de madrugada a tempo de beber o leite fresquinho ordenhado das vacas. Era a fazenda do Zé Caetano, lugar de parada certa para tomar um café fresquinho passado na hora com bolo de fubá e queijo, enquanto descansavam a caminho dos pesqueiros, próximo ao rancho do Chico Bastos.



Debaixo do bananal, lugar de terra preta boa e macia, Zé cavou o chão com a enxada à procura de minhocas graúdas que serviriam de isca. Os dois se embrenharam mata adentro até o córrego repleto de lambaris que, não demoraram a aparecer enchendo dois samburás. Desciam margeando o riacho, delongando um pouco mais nos melhores pesqueiros. O tempo passava devagar e quando a fome apertava o pai tirava de dentro da mochila um sanduíche de pão com mortadela e ovo mexido.



Pedrinho entretido com os peixinhos que roubavam sua isca na vara, nem percebeu o pai se afastando de onde estavam à procura de peixes maiores. Nisso, o tempo, que estava firme e de sol brilhante, com céu sem nuvens, virou de repente escurecendo trazendo inesperado temporal com fortes rajadas de vento.



O menino, apreensivo, com medo de estar perdido no meio do nada, gritou pelo pai, que assoviou de volta várias vezes. Pedrinho guiou-se pelos assovios até chegar ao bambuzal onde o pai estava escondido se protegendo da chuva. A água que penetrava entre os bambus represada na aba do chapéu de palha escorria no rosto do menino.



– Pai, porque não foi ao meu encontro? - perguntou.

 – Eu sabia bem o lugar onde estava e mantinha contato visual, apesar de você achar que estava perdido.

– Espetei o dedo com uma ferpa.

– Venha cá, deixe-me ver, retirando o fragmento de bambu com a unha. Faça xixi sobre o ferimento - orientou.

– É sério pai, quer que eu mije no machucado? – perguntou o menino com olhos arregalados.

Claro, o sal da urina vai evitar que infeccione. Em casa faremos um curativo correto com mertiolate.



A chuva de verão não demorou a passar dando lugar novamente ao sol forte. Eles retornaram da aventura com o samburá cheio de peixes de variadas espécies.